Um economista salva vidas? Como a modelagem econômico-financeira tira do papel projetos de infraestrutura

Quando se fala em economista, a maioria das pessoas pensa em alguém no mercado financeiro, olhando gráficos de bolsa e taxa de juros. Um economista desse tipo dificilmente vai salvar alguma vida. Mas o economista que atua no mundo real, no mundo concreto, salva vidas, sim. E faz isso por meio de algo pouco conhecido do grande público: a modelagem econômico-financeira de projetos de infraestrutura.
Sou Eduardo Moraes, economista, advogado e mestre em finanças. Neste artigo, explico o que é essa modelagem, por que ela é decisiva para concessões e PPPs, e conto a experiência de um projeto que coordenei: a concessão da Via Liberdade, que inclui a BR-356, entre Belo Horizonte e Ouro Preto.
O que é modelagem econômico-financeira de um projeto de infraestrutura
Antes de uma rodovia, um sistema de saneamento ou um hospital ser concedido à iniciativa privada, o poder público precisa responder a perguntas difíceis:
Quanto vai custar construir, operar e manter esse ativo por 20, 30 anos?
Quanto de receita ele pode gerar (pedágio, tarifa, contraprestação pública)?
Qual tarifa é justa para o usuário e, ao mesmo tempo, atrativa para o investidor?
Quais riscos ficam com o governo e quais ficam com o parceiro privado?
O projeto se sustenta sozinho ou precisa de aporte público?
A modelagem econômico-financeira é o trabalho técnico que responde a essas perguntas. Ela combina projeções de demanda, estimativas de investimentos (capex) e custos operacionais (opex), estrutura de financiamento, tributação, taxa de retorno e matriz de riscos em um modelo que demonstra se o projeto é viável e em que condições.
Em projetos de concessão, essa modelagem caminha lado a lado com a modelagem jurídica: contrato, edital, mecanismos de reequilíbrio, indicadores de desempenho e penalidades. Uma não funciona sem a outra.
Por que uma boa modelagem faz diferença (inclusive em vidas)
Uma modelagem mal feita gera problemas graves e conhecidos:
leilões desertos, porque o projeto não é atrativo para ninguém;
tarifas abusivas, porque o risco foi mal distribuído;
concessões que quebram no meio do caminho e obras que nunca terminam;
pedidos sucessivos de reequilíbrio e disputas judiciais.
Já uma modelagem bem feita atrai investidores sérios, gera competição no leilão, garante tarifa adequada e, principalmente, assegura que as obras previstas realmente aconteçam. Em uma rodovia perigosa, isso significa duplicação, acostamento, terceiras faixas, áreas de escape. Significa menos acidentes e menos mortes.
O caso Via Liberdade: BR-356, de Belo Horizonte a Ouro Preto

A BR-356, no trecho entre a Região Metropolitana de Belo Horizonte e a Região dos Inconfidentes, é historicamente uma rodovia complicada: pista simples, serra, tráfego intenso de veículos pesados ligados à mineração e de turistas que vão a Ouro Preto e Mariana. O resultado foi um histórico de muitos acidentes, com dezenas de mortes nos últimos anos.
Tive a oportunidade de atuar como coordenador da modelagem econômico-financeira e jurídica da concessão Via Liberdade, uma parceria público-privada estruturada pelo Governo de Minas Gerais. Em linhas gerais, o projeto prevê:
Concessão de cerca de 190 km de rodovias (BR-356, MG-262 e MG-329), por 30 anos;
Duplicação da BR-356 entre Nova Lima e Mariana;
Terceiras faixas, acostamentos e contorno duplicado em Cachoeira do Campo;
Área de escape na serra, em Itabirito, para veículos pesados;
Investimentos bilionários, com parte dos recursos vinculada ao Novo Acordo de Mariana.
O leilão foi realizado na B3, em setembro de 2025, com disputa entre concorrentes e deságio em relação ao valor máximo previsto em edital, um sinal de que o projeto foi considerado atrativo e bem estruturado pelo mercado.
Agora, a iniciativa privada vai trabalhar na duplicação dessa rodovia. Para quem usa a estrada todos os dias, isso significa mais segurança e menos tragédias.
As etapas de uma modelagem de concessão
De forma simplificada, o trabalho segue estas etapas:
Diagnóstico: levantamento das condições do ativo, da demanda atual e dos gargalos.
Estudos de demanda: projeção de tráfego (ou de usuários) ao longo de todo o contrato.
Engenharia e custos: definição das obras, cronograma, capex e opex.
Modelo financeiro: fluxo de caixa do projeto, estrutura de capital, tributos, TIR e valor presente.
Matriz de riscos: definição de quem assume cada risco (demanda, construção, geológico, cambial, regulatório).
Modelagem jurídica: edital, contrato, indicadores de desempenho, regras de reequilíbrio.
Consulta pública e ajustes: diálogo com sociedade, órgãos de controle e potenciais investidores.
Leilão e assinatura do contrato.
Para quem esse conhecimento é útil
Governos estaduais e municipais que querem estruturar concessões e PPPs.
Empresas e consórcios interessados em participar de leilões de infraestrutura e precisam avaliar se a proposta é viável.
Financiadores e investidores que precisam entender os riscos do projeto.
Concessionárias que enfrentam desequilíbrios contratuais e precisam de pleitos de reequilíbrio bem fundamentados.
Conclusão
A infraestrutura que melhora a vida das pessoas não nasce apenas de vontade política ou de recursos disponíveis. Ela depende de um trabalho técnico sério de modelagem econômico-financeira e jurídica, que transforma uma necessidade em um projeto viável, atrativo e sustentável por décadas. É assim que um economista, longe das telas do mercado financeiro, pode ajudar a salvar vidas.
Quer entender como estruturar ou avaliar um projeto de concessão ou PPP? Vamos conversar. Posso ajudar a tirar do papel projetos que melhoram a vida das pessoas.
Perguntas frequentes sobre modelagem de concessões
O que é modelagem econômico-financeira?
É a construção de um modelo que projeta receitas, custos, investimentos, financiamento, tributos e riscos de um projeto ao longo do tempo, para verificar sua viabilidade e definir as condições do contrato.
Qual a diferença entre concessão comum e PPP?
Na concessão comum, o projeto se paga com as tarifas cobradas dos usuários. Na PPP (patrocinada ou administrativa), há pagamento do poder público ao parceiro privado, complementando ou substituindo a tarifa.
Quem faz a modelagem de uma concessão?
Normalmente, consultorias contratadas pelo poder público, por bancos de fomento ou por meio de PMI (Procedimento de Manifestação de Interesse), envolvendo economistas, engenheiros e advogados.
O que é a Via Liberdade?
É a concessão, em regime de PPP, de cerca de 190 km de rodovias em Minas Gerais, incluindo a BR-356 entre a Grande BH e Mariana, com previsão de duplicação e outras melhorias de segurança.
Por que a matriz de riscos é tão importante?
Porque define quem paga a conta quando algo sai do previsto. Uma matriz mal desenhada encarece tarifas ou leva a concessão ao colapso.
Eduardo Moraes é economista, advogado e mestre em finanças. Atua em modelagem econômico-financeira, estruturação de projetos de infraestrutura e consultoria para empresas.

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